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Tertúlias Évora Hotel - Diário do Sul

O convidado de hoje nas “Tertúlias do Évora Hotel” é Carlos Pegado, 44 anos, empresário taurino, natural de Montemor-o-Novo, casado e pai de cinco filhos.
Personalidade multi-facetada tem um vasto curriculum ligado à tauromaquia e ao mundo do espectáculo. No primeiro caso conhece bem o piso dos “ruedos” pois durante 18 anos pertenceu ao Grupo de Forcados de Montemor. Quanto às outras actividades produziu já diversos eventos ligados ao teatro, concertos, espectáculos circenses com ligação ao Circo de Pequim. Teve colaboração com Filipe La Féria na digressão nacional de “Amália” e mais recentemente decidiu organizar campeonatos de bridge, que tiveram Évora como cenário. E já gravou um CD com fados! É esta a figura que connosco almoçou na companhia de Miguel Breyner, director do Évora Hotel; e Paulo Piçarra, Editor Executivo deste jornal.

“A figura principal da “festa” é o toiro: É a base de tudo.”
Carlos Pegado
 Como vai o mundo dos toiros?
 O mundo dos toiros graças a Deus está bem, cheio de gente nova e com vitalidade. O público tem correspondido nestes últimos anos, e a pouco e pouco a festa está a modernizar-se em termos de infraestruturas, do aproveitamento, de espaços e sua requalificação. As antigas praças de toiros estão a transformar-se em espaços de qualidade, e isso é importante e como é óbvio a festa está virada para o futuro; está com garantias e pensamos que com boa saúde.

Estamos em crer que o público andou um pouco afastado.
 De facto aqui há alguns anos andou afastado. Houve porém uma renovação também a nível empresarial
e de toureiros que já estão a consolidar-se. Surgiram novos valores, numa fase de transição e a par da crise. Mas pessoalmente acho que crise não apareceu no nosso país agora. Fala-se muito dela e até já estamos habituados. Mas ela apareceu há seis, sete ou oito anos, e nesse período o público andou um pouco afastado. Mas depois com o ressurgimento
do Campo Pequeno que eu penso foi fundamental para a renovação e consolidação da imagem da festa, houve de novo um interesse geral e fundamentalmente com o que se passa no interior da Praça, pois isso é que é importante.
Houve renovação de artistas, que estavam na forja e se firmaram como figuras e manter personalidades
(como o João Moura que há 30 anos cá anda, e é considerado sempre o nº 1) a par de algumas figuras vindas da Espanha e também a importância da nossa festa: do forcado amador, das excelentes ganadarias
que nós temos; tudo isso é a garantia de um grande espectáculo.
 Trata-se de um espectáculo caro?
 É um espectáculo caro. Mas digo-lhe que é o único que não vive de subsídios. Vive por si próprio, muito português, vive por vezes com alguma dificuldade mas que chega a todos os cantos de Portugal, por que há possibilidade de o colocar em praças desmontáveis (coisa com que eu não concordo muito) e também podemos ver que há vários tipos de tauromaquia. Há aquela que nós chamamos “de rua” ou sejam as largadas com o toiro corrido na via pública; há as “capeas arraianas; a tourada “à corda” nos Açores. Portanto temos até certa uma riqueza cultural dentro da própria tauromaquia. E depois temos uma coisa que é única no mundo que é o forcado amador, e que aqui em Évora tem uma importância muito sui generis porque as pessoas respeitam o forcado entendem da arte de pegar, e assim a Praça de Évora seja especial para quem assiste a uma pega e também para quem pega o toiro. Os forcados percebem que o público reage de uma forma diferente do que acontece noutras praças; se bem que já se notando o mesmo noutras arenas.
Portanto Évora nesse aspecto está a praticar um bocadinho de cultura, da maneira de estar em relação ao forcado.
 E a Praça de Évora deixou de ser aquela semi-ruína para se transformar num espaço de qualidade
 Claro que sim. A Praça de Évora foi sempre uma das preferidas, é uma das mais importantes e antigas do nosso país. Era uma Praça muito castiça, mas tinha aquele problema que devia ser alterado, era uma praça muito incómoda; toda a gente reclamava daquilo ser um local onde não se podia estar comodamente sentado. E como os aficionados são muitos normalmente enchia. Então as pessoas passavam ali duas horas e meia com o joelho do espectador que estava mais acima espetado nas costas.
E então criou-se esta nova praça, graças a muito boas vontades. Eu simplesmente dei o “pontapé de saída” (porque eu já era o empresário da praça e senti que havia necessidade de renovação) e em boa hora o fiz porque com o Dr. José Ernesto de Oliveira conseguimos encontrar o caminho para com a família proprietária do recinto, renovando o espaço e transformando-o naquilo que está hoje em dia.
 Outra coisa: o toureio apeado em Portugal entrou em vias de extinção?
 Praticamente. Porque lhe falta a base (ou seja a verdade) daquilo que é a essência do toureio a pé, que é a sorte de varas e a morte do toiro. Quem é muito aficionado do toureio
a pé, seria também muito aficionado se ele existisse também em Portugal com essa vertente. Como não existe, vão a Espanha. Há milhares de portugueses que vão a Espanha (que é aqui ao lado) assistir às feiras de Sevilha, de Badajoz, à feira de Zafra, inclusivamente à feira de Madrid, e no nosso país o toureio a pé carece dessa verdade e portanto a pouco e pouco, e uma vez que não há “verdade” vai desaparecendo e quase extinguindo-se. É o que está a acontecer
 Mas porque é na época do Manuel dos Santos e do Diamantino Viseu essa proibição já existia e as praças estavam sempre cheias? Passe a afirmação, eles eram o Benfica-Sporting da tauromaquia.
 Sim, houve una altura de facto que isso sucedia. E o Manuel dos Santos chegou a matar em Portugal, mas como forma de protesto. De vez em quando os toureiros matavam o toiro. Mas sim, de facto existiu esse “boom”, mas eu penso que na altura não havia tanta oferta em termos de espectáculo, nem havia a facilidade de uma pessoa se deslocar com facilidade para outro local. Aquele que empreendesse uma viagem para Madrid demorava um dia. Hoje é tudo mais rápido como sabe. Vai-se de manhã no avião, assiste-se à corrida e ao fim do dia estamos outra vez em Lisboa.
 De qualquer modo a morte do toiro é em Portugal contestada por muitos há longos anos, e agora mesmo em Espanha começam
a surgir movimentos que actuam com o mesmo pensamento

 Sim. E na Espanha inteira a festa de toiros é contestada, mas essas atitudes não têm expressão; é contestada
como é contestada uma ideologia política, eu sei lá. Há várias posturas em relação a festa. O que é verdade é que ela tem uma raiz cultural muito forte, tanto em Espanha
como em Portugal, mais na segunda, e o próprio Parlamento Europeu já tentou acabar com as corridas de toiros, e isso não sucedeu pela força que os espanhóis têm. Eu penso que os espanhóis mais depressa saiam do Parlamento Europeu do que acabavam as corridas no seu país. E nós acabamos por ir um pouquinho a reboque disso.
E isso pensa-se muito na zona sul, mas norte também existe muita “aficion”, mas sente-se mais no sul. Também é onde estão sediadas as ganadarias, e se vê essa força dum toiro, que é uma força bruta. É um animal que encanta e apaixona por esse motivo; pela sua bravura, por esse mistério que é a bravura, e aqui no Alentejo e Ribatejo é que existe esse motor forte, essa paixão pelo toiro.
 E depois as ganadarias espanholas
estão igualmente muito perto.

 É verdade. E os aficionados conhecem-nas, é uma zona onde se vive com muita intensidade o toiro. E depois há um trabalho de campo que se faz à volta do animal que para quem está “por dentro” também fica apaixonado. Tudo o que é feito até o toiro chegar à praça decorre num mundo muito diferente e que pouca gente conhece. Inclusivamente os defensores dos animais. Eles estão muito mal informados em relação ao amor que existe nos aficionados, e nomeadamente pelo toiro.
 Há quem considere as festa dos toiros um espectáculo elitista.
 Não. Eu acho até que é um espectáculo mais transversal que existe no país; juntamente com o futebol e os fados. São as três coisas mais transversais. Nós temos o sol e sombra que serve de metáfora para muitas coisas em relação à nossa sociedade. Temos sol e a sombra; temos os ricos e os pobres; dizendo isto por palavras mais claras.
 O Carlos andou nas pegas durante 18 anos e teve mesmo um percalço grave
 Tive uma colhida grave. Houve um toiro que me atingiu com uma cornada e atingiu-me o fígado, tive um pneumo-torax, e sem vesícula. Quero dizer: fiquei todo desfeito por dentro. Estive uma série de meses no hospital; isto foi em Beja, no ano de 1993; e pronto fiquei com uma quebra física e moral muito grande na minha vida. Mas é assim. Aquele sonho místico dos toureiros é que se morre na arena, o que felizmente não sucedeu comigo, mas a verdade é que depois disso continuei a pegar. Ainda por lá andei mais sete ou oito anos.
 O forcado quando vê aquele “comboio” a avançar tem medo?
 Eu acho que toda a gente deve sentir isso. Qualquer pessoa normal tem muitos apertos na vida. E o forcado tem a vantagem de conseguir dominar o medo, e de reagir friamente a um problema que é adverso. No fundo, no fundo é isso. Eu penso que ser forcado dá-nos uma “estaleca” diferente para a vida, e quem consegue atingir essa relação com o medo de entrar numa pega. Há muitos forcados que se vestem de forcado e depois na essência nós pensamos que aquela actividade não o é para ele.
Ser forcado é conseguir o domínio sobre si próprio através do domínio do medo, tendo uma boa condição física e conhecimentos técnicos que são adquiridos de várias formas: aprendendo com os mais velhos, vendo, indo ao campo, indo às corridas. E assim consegue chegar lá, embora o forcado no fundo seja um bocadinho teatral. O forcado que se está a rir para o medo, mas eu e muita gente conseguimos ver pela expressão o que ele está a sentir. E todos afinal todos estão cheios de medo mas vão conseguir controlar-se dominar; o que é importante.
 E quanto à protecção que o forcado tem face a um acidente. Que entidades o apoiam a todos os níveis?
 Eu tenho um feitio que é de barafustar contra as coisas que não estão bem. E na altura em que me aconteceu esse acidente, foi numa corrida de beneficência a favor da Cruz Vermelha e eu vi-me a braços com uma conta enorme do hospital, porque fui operado três vezes, e o facto o acidente ter acontecido numa corrida em que nós todos vamos lá dar o nosso corpo a favor de uma causa que é para alguém ganhar dinheiro, acho que não faz sentido nenhum que alguém possa sair dali prejudicado não só física mas financeiramente. E a partir daí iniciou-se um projecto que permitiu que hoje exista por obrigação regulamentar a necessidade da existência de um seguro para todos os grupos de forcados que actuam nas praças portuguesas.
 Qual é o fundamento para todos os anos se efectuar uma corrida de beneficência?
 Tradicionalmente a festa brava desde sempre teve particularidades nesse aspecto. Antigamente não havia empresários, as corridas de toiros eram festas que eram dadas pelo Rei nomeadamente em acontecimentos
sociais, e não cobravam bilhetes, ou se cobravam era com fins beneméritos. Isso é o surgir, digamos da festa brava, e depois tradicionalmente sempre existiram esses espectáculos de ajuda a instituições carenciadas.
E depois em certa altura caiu um pouco em desuso. E eu quando fiquei com a praça de Évora que antigamente dava dois espectáculos. E com esta praça renovada criei um calendário. E achei que fazia todo o sentido chegarmos ao fim do ano e fazer um espectáculo com este cariz, até porque nos faz sentir bem.Andámos aqui o ano todo a pedir às pessoa Recebemos e agora estamos a dar. Acho que faz sentido e uma empresa que esteja minimamente firmada, acho que o deveria fazer.
 E agora outra coisa. Você que é conhecido por ser um empresário taurino, tem afinal participado noutras actividades como seja o teatro, concertos, circo e agora até meteu ombros aqui em Évora à organização de campeonatos de bridge.
 Eu gosto de tudo o que sejam artes e tento de alguma forma, muitas vezes ligar-me a outros eventos que não os toiros. Nomeadamente o fado, especialmente a guitarra portuguesa. Em vez da banda tocar pasodobles espanhóis faz todo o sentido que a música portuguesa esteja na corrida de toiros. Depois pintura, escultura. E depois gosto de eventos; já trabalhei com o Filipe la Féria, já fiz produções para televisão e circo. Depois a actividade do espectáculo é a forma como nós nos relacionamos com o público. Porque o público afinal é que sustenta os espectáculos. Quanto ao bridge, isso vem do lado da minha mulher que faz todo o gosto em diversificar as nossas organizações. É um festival que temos trazido a Évora com cerca de trezentas pessoas que aqui passam o fim-de-semana a desfrutar não só do jogo como dos passeios que nós propiciamos, com mostra da nossa gastronomia e animação nocturna.
 
Mas para si os toiros são o mais importante? E os toureiros?
 Eu acho que um bom toureiro sem um bom toiro não faz nada, enquanto ao contrário pode divertir. Com um bom toiro e um mau toureiro pode acontecer algo de importante; nem que seja uma tragédia, que nós nunca desejamos, mas que faz parte da própria festa. A tragédia e o sucesso são o que alimenta a paixão dos aficionados.
Em Espanha há óptimos toureiros que só eles enchem as praças como é agora o caso do José Tomás. Em Portugal nos últimos 20/30 anos só houve dois nomes que bastava ser anunciados para lotar as praças: foram o João Moura e o Pedrito de Portugal.
 E mulheres toureiras? Ainda se fala da Conchita Cintrón recentemente falecida.
 Foi uma grande toureira; a pé e a cavalo. Era muito culta e eu cheguei ainda a ter várias palestras com ela. Entretanto apareceu a Sónia Matias e agora cada vez há mais, talvez seis ou sete. Já se faz inclusivamente a “corrida das mulheres”. Há gente que não concorda mas eu creio haver lugar para tudo.

Entrevista Diário do Sul, por António Luiz Rafael.
Publicação: Segunda-Feira, 2 de Novembro de 2009
Carlos Pegado, Miguel Breyner (Dir. Évora Hotel) e Paulo Piçarra (Ed. Executivo do Diário do Sul)
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